🖼️O quadro de 1908 tinha meu gato pintado — com a mesma cicatriz
Eu juro que entrei naquele antiquário só pra fugir da chuva. Saí com um quadro de 1908, três perguntas sem resposta e a sensação de que o meu gato sabia de tudo antes de mim. Vou contar do começo porque ninguém vai acreditar no fim.
1. A chuva e a placa torta
Era terça, 18h, chovendo aquela chuva fina chata de São Paulo. Eu tava na Augusta voltando do dentista, anestesia ainda fazendo efeito, e enfiei o pé numa rua que eu nunca tinha visto. Sério, moro aqui há 8 anos. Uma placa de madeira torta dizia 'ANTIGUIDADES — desde 1962' e a porta tava entreaberta. Entrei só pra não molhar mais o cabelo. O cheiro era de cera de móvel e papel velho, daquele jeito que dá soninho. Um senhor magro, óculos de aro fino, levantou os olhos do livro e me disse 'finalmente'. Achei que ele tinha me confundido com alguém. Sorri educada e fingi olhar uns abajures. Foi quando virei pra parede do fundo.
2. O quadro que me olhou de volta
Tinha uns vinte quadros empilhados, mas um tava sozinho num cavalete de madeira escura, com uma luzinha amarela só pra ele. Pintura a óleo, moldura dourada gasta, etiqueta '1908 — autor desconhecido'. E no centro, sentado num veludo verde, tinha o Tofu. Meu Tofu. Gato laranja, peito branco em formato de coração torto, a mancha preta embaixo do queixo igual uma sombrinha. Eu ri sozinha, achei coincidência fofa. Aí me aproximei. A orelha esquerda do gato do quadro tinha a mesma cicatriz em V que o meu tem desde a briga com o gato do vizinho em 2022. Mesma. Cicatriz. Em. V. Eu travei. Tirei foto do quadro tremendo.
3. 'Ele tava esperando alguém'
O senhor apareceu do meu lado sem fazer barulho, daqueles que tu não escuta vir. Ele disse, calmo demais pro momento: 'esse quadro tá aqui há trinta anos, moça. Já recusei três compradores. Ele tava esperando alguém'. Eu ri nervosa e falei 'esperando o quê, moço'. Ele apontou pra etiqueta atrás da tela, escrita à mão num papel amarelado: 'NÃO VENDER ATÉ QUE A DONA APAREÇA'. Letra firme, tinta marrom. Perguntei quem escreveu. Ele disse que foi o avô dele, em 1994, na semana em que morreu. O avô tinha comprado o quadro num leilão em Petrópolis e jurou que um dia uma mulher entraria na loja procurando se reconhecer.
4. A foto que eu não tirei
Saquei o celular pra mostrar uma foto do Tofu pra ele, pra provar que eu não tava inventando. Abri a galeria e tinha uma foto que eu juro por tudo que eu nunca tirei: o Tofu sentado num veludo verde, na mesma pose do quadro, olhando pra cima. Data: 11 de março de 2023. Eu nem tinha veludo verde em casa. Eu nem TENHO veludo verde em casa. Mostrei pro senhor sem falar nada. Ele só assentiu, tipo já sabia. Disse 'então é você mesmo'. Sentei no chão da loja porque minhas pernas falharam. Ele me trouxe um copo d'água num copo de cristal lascado e ficou em silêncio até eu conseguir respirar de novo.
5. O verso da tela
Pedi pra ele virar o quadro. Ele virou devagar, com luvas brancas que tirou do bolso do colete. Atrás da tela, escrito a carvão, num português antigo meio italianado: 'Per la mia gattina che tornerà — 1908 — A.R.'. Embaixo, em letra mais nova, anos 90, alguém tinha anotado: 'A dona reconhece o bicho. O bicho reconhece a dona. Não interromper'. Eu perguntei quem era A.R. Ele disse que ninguém nunca descobriu, mas que o quadro veio de uma casa em Petrópolis que pertenceu a uma imigrante italiana chamada Anna Rossetti, morta em 1909 — um ano depois do quadro — sem deixar filhos. Só o gato. Que sumiu no dia do enterro e nunca mais foi visto.
6. O preço e o pacto
Perguntei quanto custava. Ele riu pela primeira vez, um riso de quem sabe a piada toda. Disse que o preço era um real, simbólico, mas que tinha uma condição: eu não podia separar o quadro do gato. Os dois tinham que viver na mesma casa até o gato morrer. Depois eu devolvia o quadro pra loja, sem cobrar nada. Achei tão absurdo que aceitei na hora. Assinei um papel com a data, meu nome, e o nome do Tofu. Ele guardou numa pasta de couro que parecia ter uns cem anos. Saí com o quadro embrulhado em pano branco, debaixo do braço, chuva já parada, sol laranja batendo na Augusta como se nada tivesse acontecido.
7. A reação do Tofu
Cheguei em casa, tirei o pano, encostei o quadro no sofá. O Tofu tava dormindo no parapeito. Acordou, olhou o quadro, e fez uma coisa que ele nunca tinha feito em 4 anos comigo: andou devagar até o quadro, cheirou a moldura, deitou na frente e começou a ronronar tão alto que eu escutei da cozinha. Ficou ali três horas. Não comeu, não bebeu, só ronronava com os olhos fechados, tipo reencontro. Naquela noite ele dormiu na minha cama pela primeira vez. Antes ele dormia sempre no sofá. Faz duas semanas que ele não sai do lado do quadro, e juro pra vocês, ele tá mais novo. A cicatriz tá clareando.
8. O que eu não consigo desencanar
Voltei na rua ontem pra perguntar mais coisas pro senhor. A loja não tava lá. Tinha uma lavanderia no lugar, daquelas de máquina, funcionando há 11 anos segundo o moço do caixa. Mostrei a foto do quadro que tirei dentro da loja e ele empalideceu — disse que o avô dele falava de uma antiguidades que existia ali nos anos 80, mas que tinha fechado quando o dono morreu sem herdeiros. Mostrei o papel que eu assinei. O nome do senhor, escrito de próprio punho, era o nome do avô do moço da lavanderia. Tô olhando o Tofu agora, ele tá dormindo de bruços em cima do quadro como se fosse um cobertor, e eu não sei se isso é uma história bonita ou se eu deveria ter medo.
Ideias de enquete prontas
- 1Você teria comprado o quadro?Na hora, sem pensarNão, daria meio medoSó se viesse com laudoEu correria pra foraLançar esta enquete
- 2O que tá rolando aqui?Reencarnação felina realCoincidência muito loucaO senhor era fantasmaTudo armaçãoLançar esta enquete
- 3O Tofu sabia desde sempre?Com certezaTalvez sentiu na horaGato não lembra nadaEle tá fingindoLançar esta enquete
- 4Você voltaria na rua procurar a loja?Todo dia até acharUma vez só pra confirmarNunca maisLevaria amigo juntoLançar esta enquete
- 5Devolveria o quadro quando o Tofu morrer?Sim, foi o tratoNão, fico com eleQueimaria por garantiaDoaria pra museuLançar esta enquete
Perguntas frequentes
P.Isso é real mesmo ou tu inventou?+
É real. Tenho a foto do quadro, o recibo de um real, e o Tofu literalmente em cima dele agora. Posso não ter explicação, mas a história aconteceu exatamente assim.
P.Comprou o quadro mesmo? Tá na tua casa?+
Tá na sala, encostado na parede do lado do sofá. Não pendurei ainda porque o Tofu não deixa, ele dorme em cima toda noite. Parece que ele tá tomando conta.
P.O gato (Tofu) tá bem? Não tá agindo estranho?+
Tá ótimo, comendo normal, brincando, só que agora ronrona o dia inteiro e a cicatriz da orelha tá sumindo de leve. Levei no veterinário, ele tá saudável, só 'muito feliz' segundo a doutora.
P.Tu pesquisou essa Anna Rossetti de Petrópolis?+
Pesquisei. Tem registro de óbito de uma Anna Rossetti em 1909 em Petrópolis, italiana, sem filhos. Mas nenhum jornal da época fala de gato. O resto eu sei pelo senhor da loja que segundo a lavanderia já tinha morrido.
P.Você tem medo de dormir com o quadro em casa?+
Tive nas primeiras noites. Hoje não. A energia da casa ficou estranhamente calma, tipo aquele silêncio bom de domingo de manhã. Se um dia mudar, eu volto aqui contar.
P.Vai postar foto do quadro e do Tofu?+
Vou postar nos stories quando passar a vergonha de mostrar minha sala bagunçada. Por enquanto deixei só o Tofu de perfil dormindo em cima da moldura, dá pra ver no meu Insta.
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