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📸Revelei um filme da câmera do meu avô. Eu apareço nas fotos. Nasci 12 anos depois dele morrer.

Gente, eu não tô bem. Vou tentar contar tudo na ordem porque ainda tô tremendo. Se alguém aqui entende de câmeras antigas, fotografia analógica ou, sei lá, paranormal, por favor lê até o fim. Eu juro que isso aconteceu hoje de manhã.

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A câmera tava num caixote esquecido no sótão

Minha avó tá vendendo a casa em Petrópolis e me chamou pra ajudar a esvaziar o sótão. Aquele cheiro de mofo, baú dos anos 70, vestido de noiva amarelado, sabe? No fundo de uma caixa de sapato Vulcabras, embrulhada num pano vermelho, tava a Pentax K1000 do meu avô. Ele morreu em 1991, num acidente de carro na BR-040. Eu nasci em 2003. Nunca conheci. Só vi ele em retrato de moldura dourada na sala. Minha avó pegou a câmera, ficou parada uns 10 segundos olhando, e disse: tira pra você, ele ia gostar. Quando abri o compartimento do filme, tinha um rolo dentro. Kodak Gold 200, lacrado pela alavanca, 24 poses, todas usadas. Quarenta anos guardado. Meu coração já tava acelerado só por achar.

Levei numa loja de revelação no centro do Rio

Procurei no Google, achei um senhor chamado Seu Wilson, na Rua Buenos Aires, faz revelação analógica há 50 anos. Levei o rolo. Ele olhou, fez careta, disse que filme tão velho dificilmente sai alguma coisa, mas que ia tentar. Cobrou 80 reais. Pediu 3 dias. Saí dali achando que ia receber 24 retângulos pretos e ia rir da minha cara. Voltei na quarta de manhã. Seu Wilson tava esquisito. Mãos meio trêmulas. Me entregou um envelope pardo e disse: as fotos saíram. Quase todas. Mas tem umas aí que eu não soube explicar, melhor você ver em casa. Ele NÃO quis o dinheiro. Empurrou os 80 reais de volta na minha mão. Eu já saí da loja com aquele frio na barriga.

As primeiras 18 fotos eram normais

Sentei no banco da Cinelândia e abri o envelope ali mesmo, ansioso demais. As primeiras eram de uma viagem à praia, anos 80, dava pra ver pela roupa de banho da minha avó jovem, magérrima, linda. Meu pai criança brincando na areia em Cabo Frio. Foto da Kombi da família. Aniversário com bolo Pullman, vela de número 9 (meu pai fez 9 em 1985). Tudo nostálgico, tudo bonito, eu até sorri. Cheguei na foto 19. Era uma sala que eu não reconheci. Sofá marrom de veludo cotelê, papel de parede florido, abajur de bambu. No meio da sala, sentada no tapete, uma criança de uns 6 anos brincando com carrinho. A criança tava de costas. Vesti azul. Eu virei a foto pra ver se tinha data. Tinha, escrita a lápis pela letra do meu avô: agosto 1989.

Na foto 20 a criança tava de perfil

Eu reconheci o perfil. Eu reconheci o cabelo. Cara, eu reconheci o JEITO da criança segurar o carrinho, porque até hoje eu seguro caneca assim, com o dedinho levantado, minha mãe vive zoando. Mas pensei: deve ser meu pai, ou um primo. Olhei a foto 21. A criança tava de frente. Olhando direto pra câmera. Tinha uma cicatriz no queixo, em formato de V, do lado esquerdo. Eu levei a mão no meu queixo. Eu tenho uma cicatriz no queixo, lado esquerdo, formato de V. Caí da bicicleta aos 7 anos, em 2010. Sete pontos no Miguel Couto. Tenho marca pro resto da vida. A criança da foto, em 1989, tinha a MESMA cicatriz, no MESMO lugar, com o MESMO formato. Eu nem nasci ainda. Meu avô já tinha morrido há 2 anos quando essa foto foi tirada na contagem dele, ou 14 anos antes de eu nascer.

Voltei correndo na loja do Seu Wilson

Cheguei ofegante. Mostrei as 3 fotos pra ele (tinha uma terceira que eu nem tinha visto direito, foto 22, a criança no colo de uma mulher que NÃO é minha avó). Seu Wilson sentou. Acendeu um cigarro dentro da loja, coisa que ele falou que não fazia há 20 anos. E me contou: filho, eu revelo filme há cinco décadas. Já vi de tudo. Filme molhado, queimado, exposto. Mas filme de 40 anos sair com a nitidez desse, com cor, com grão certinho, isso não acontece. Esse rolo tava preservado de um jeito que não existe. E eu reconheci essa cicatriz na hora, porque você apareceu aqui com ela quando trouxe o filme. Eu perguntei: e a mulher da foto 22, quem é? Ele falou: essa eu já vi. Eu fotografei o casamento dela em 1988. Mas ela morreu de câncer em 90. Antes do seu pai ter você. Antes de tudo.

Mostrei pra minha avó

Voltei pra Petrópolis no fim da tarde. Cheguei, minha avó tava regando o jardim. Mostrei as três fotos sem falar nada. Ela olhou. Pousou a regador. Sentou no banco. Ficou em silêncio uns 2 minutos, sério. Depois falou baixinho, sem me olhar: seu avô sempre dizia que ia conhecer todo mundo da família, antes ou depois, não fazia diferença pra ele. Eu achei que era papo de bêbado. Ele bebia muito naquele último ano. Aí ela perguntou se eu nunca tinha sentido cheiro de fumo de cachimbo na minha cama de criança. Eu travei. Porque tinha. Minha mãe vive contando que quando eu era bebê, eu acordava cheirando fumo, e ninguém na casa fumava. Ela achava que era impregnação do prédio antigo. Minha avó falou que meu avô fumava cachimbo Borkum Riff, baunilha. Era o cheiro exato.

A foto 22 tem alguma coisa no fundo

Em casa hoje à noite, peguei a foto 22 e botei sob a luz forte da escrivaninha, ampliei no celular. A mulher segurando a criança (eu) tá sorrindo, com batom vermelho. Mas atrás dela, no canto direito, tem um espelho oval, daqueles redondos antigos de penteadeira. No reflexo do espelho dá pra ver o fotógrafo. É um homem de bigode, camisa social bege, segurando a Pentax na altura do olho. É meu avô. A foto do retrato dourado da sala. O mesmo bigode. A mesma cara. Mas tem uma coisa errada no reflexo. Atrás do meu avô, no reflexo, tem alguém em pé. Alto. Sem rosto definido, só uma silhueta escura. E essa silhueta tá apontando pra câmera. Pra mim. Pra criança no colo, que sou eu, 14 anos antes de eu existir.

Não sei o que fazer com o resto do envelope

Ainda tenho as fotos 23 e 24 dentro do envelope. Não consegui abrir. Tô com elas em cima da mesa, com um copo d'água em cima pesando, sei lá pra quê. Minha avó ligou agora há pouco e pediu pra eu não revelar mais nada. Disse que tem coisas que a gente abre e não fecha mais. O Seu Wilson me mandou mensagem no Whats às 22h: filho, joga esse filme num rio. Sério. Joga. Eu vou postar atualização amanhã se eu tiver coragem de ver as duas últimas. Se eu sumir do Twitter, alguém entra em contato com a minha mãe, Patrícia, mora no Méier. Ela merece saber. Tô deixando a luz do quarto acesa hoje. E meu travesseiro tá cheirando a baunilha.

Ideias de enquete prontas

  • 1
    Você abriria as últimas 2 fotos?
    Abro AGORA, preciso saberQueimo o envelope inteiroMostro pra um padre antesJogo no rio igual o Seu Wilson falou
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  • 2
    O que tem na foto 23 e 24?
    Você adulto, hoje, na mesma salaA silhueta sem rosto de pertoVocê mortoNada, filme queimado no fim
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  • 3
    A criança nas fotos é:
    Reencarnação literalVisão profética do avôCoincidência absurdaEdição/montagem antiga
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  • 4
    Cheiro de cachimbo no berço é:
    Avô cuidando de longe (fofo)Avô preso entre planos (assustador)Impregnação do prédio mesmoFalsa memória da sua mãe
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  • 5
    Você contaria pra sua mãe?
    Conto tudo hojeEspero ela perguntarNunca, ela surtaMostro só a foto 19
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Perguntas frequentes

P.Isso aconteceu de verdade?+

Aconteceu comigo hoje. Tô com as fotos do lado do notebook agora. Posso postar foto do envelope pardo do Seu Wilson amanhã se vocês duvidarem, mas as fotos das pessoas eu não vou postar por respeito à minha avó.

P.Você abriu as últimas duas fotos?+

Ainda não. Vou tentar amanhã de manhã com luz do dia e com minha prima do lado. Sozinho de madrugada eu não tenho coragem. Vou atualizar a thread com print.

P.Sua família já sabe?+

Minha avó sabe e pediu pra parar. Minha mãe ainda não, vou contar pessoalmente no fim de semana, não dá pra falar isso por telefone. Meu pai morreu em 2019, então não tem como perguntar pra ele se reconhece a sala.

P.E a cicatriz, tem como explicar?+

Eu mostrei a cicatriz do meu queixo no espelho do banheiro e comparei lado a lado com a foto. É idêntica. Mesmo formato de V, mesmo lado, mesma altura. Caí da bike em 2010, tenho prontuário do Miguel Couto. A foto é de 1989.

P.Pode ser uma outra criança parecida?+

Pode, mas o jeito de segurar o carrinho com o dedinho levantado é meu desde sempre, minha mãe tem vídeo VHS meu fazendo isso. Mais a cicatriz exata. Mais o cheiro de baunilha na minha cama de bebê. São coincidências demais empilhadas.

P.O que você vai fazer com a câmera Pentax?+

Tô dividido. Seu Wilson falou pra jogar o filme no rio mas não falou nada da câmera em si. Acho que vou guardar embrulhada no mesmo pano vermelho que minha avó guardou. Não vou botar filme novo. Nunca mais.

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